Com aval científico em países como os da União Europeia e regras mais claras no Brasil desde 2024, o tema avança — mas exige atenção a rótulos, alergias e segurança.

Insetos como fonte de proteína deixaram de ser “curiosidade” e passaram a integrar, aos poucos, o debate sério sobre comida: o que é seguro, o que é sustentável e o que pode, de fato, chegar ao prato no Brasil e lá fora.

O que está em jogo quando se fala em comer insetos

A ideia costuma provocar estranhamento, mas o assunto não surgiu do nada. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) discute há anos o potencial dos insetos como alimento e ingrediente, relacionando o tema a pressões conhecidas: crescimento populacional, custo da proteína animal, impacto ambiental e necessidade de diversificar fontes de nutrientes.

Na prática, quando o debate sai do “você comeria?” e entra no “como isso pode ser usado de forma segura?”, a conversa muda. Não se trata apenas de comer um inseto inteiro, como aparece em vídeos na internet. O caminho mais comum na indústria é transformar o ingrediente em pó e usar em produtos onde o consumidor já está acostumado a ver proteína adicionada.

É aí que entram três perguntas que valem mais do que a provocação: qual é o ganho nutricional real, qual é o risco e como a regra do jogo funciona para que isso seja um alimento e não uma aposta.

Os dados nutricionais: proteína alta, mas não é tudo igual

Insetos têm, sim, potencial como fonte proteica. Um exemplo bem documentado é a larva do besouro Tenebrio molitor (conhecida internacionalmente como “mealworm”): em parecer da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), a composição da forma congelada, seca e em pó aparece com variações amplas e conteúdo de proteína reportado na faixa de 13 a 48 g por 100 g, dependendo do processamento e do produto.

Esse intervalo é um lembrete importante: “proteína de inseto” não é um número único. Muda com espécie, fase do inseto, alimentação, forma de processamento e especificação do ingrediente. Além disso, a própria EFSA chama atenção para um ponto técnico que afeta a comparação com outras fontes: a presença de quitina (um componente estrutural) pode “inflar” estimativas quando se usa o fator padrão de conversão de nitrogênio em proteína.

Ou seja: é um ingrediente promissor, mas o valor nutricional precisa ser lido com lupa e, no mundo real, dependerá do rótulo e do padrão de fabricação.

O que a ciência já conseguiu medir sobre impacto ambiental

Quando o tema ganha força fora do nicho, quase sempre aparece acompanhado de uma promessa: “é mais sustentável do que carne”. A boa notícia é que há estudos tentando medir isso com metodologia de avaliação de ciclo de vida em vez de depender de frases prontas.

Um trabalho clássico (e ainda muito citado) avaliou a produção de larvas do Tenebrio molitor como fonte de proteína para humanos e comparou indicadores ambientais com produtos como leite, frango, porco e boi. A conclusão geral do estudo é que, para produzir 1 kg de proteína comestível, os insetos podem emitir menos gases de efeito estufa e demandar muito menos terra do que as fontes tradicionais avaliadas, com uso de energia em patamar semelhante em alguns cenários.

Na vida prática, isso significa que a vantagem ambiental não é “mágica” nem automática: depende de escala, da energia usada para manter temperatura e umidade, do tipo de alimentação oferecida aos insetos e do controle sanitário do sistema. Ainda assim, a direção do resultado ajuda a explicar por que empresas e governos mantêm o tema no radar.

Segurança do alimento: o ponto que decide se vira produto

O principal gargalo para a proteína de insetos não é só aceitação cultural. É segurança, aqui, significa controle de processo, matéria-prima, contaminantes, estabilidade e, especialmente, alergias.

No parecer mais recente sobre Tenebrio molitor (publicado em janeiro de 2025), a EFSA conclui que as formas avaliadas (congelada, seca e em pó) podem ser consideradas seguras nas condições propostas de uso, mas destaca um alerta central: o consumo pode desencadear sensibilização e reações alérgicas em pessoas com alergia a crustáceos, ácaros e moluscos, além da possibilidade de alérgenos presentes na alimentação dos insetos “migrarem” para o ingrediente final.

Na prática, isso coloca o tema no mesmo patamar de seriedade de outros ingredientes com potencial alergênico: não basta “ser natural” ou “ser novo”. Precisa ter padronização e comunicação clara para o consumidor.

O que está acontecendo no mundo: aprovações e expansão cautelosa

A União Europeia vem aprovando, nos últimos anos, diferentes espécies e formatos sob a regra de “novos alimentos”, com condições de uso e exigências específicas. Autoridades nacionais também publicam listas e orientações sobre como essas autorizações funcionam e quais espécies já passaram pelo processo.

Fora da Europa, outro exemplo que chamou atenção foi a decisão de Singapura de aprovar 16 espécies de insetos para consumo humano , movimento que ilustra como alguns mercados estão abrindo caminho com listas explícitas do que pode ser consumido e sob quais condições.

Esse avanço, no entanto, não significa “liberou geral”. O padrão tem sido o mesmo: avaliação por espécie, por forma de apresentação (inteiro, em pó, tratado, desidratado) e por categoria de alimento em que o ingrediente pode entrar. É um processo demorado justamente porque o risco não é apenas teórico.

E no Brasil: como a regra funciona e o que mudou desde 2024

No Brasil, o enquadramento passa pela Anvisa. Em dezembro de 2023, a agência publicou a RDC 839/2023 para modernizar regras e procedimentos sobre comprovação de segurança e autorização de uso de novos alimentos e novos ingredientes. A norma entrou em vigor em 16 de março de 2024 (com alguns dispositivos sobre transparência e publicado em datas específicas no fim de 2023, segundo a própria Anvisa).

Na prática, o recado regulatório é direto: tudo o que não tem histórico de consumo seguro no país pode ser considerado “novo” e precisa passar por avaliação. A Anvisa também detalha, em sua página de orientação, que “novos alimentos e novos ingredientes” são aqueles sem histórico de consumo seguro no Brasil e descreve o tipo de documentação e fluxo de peticionamento para avaliação.

Isso não é um detalhe burocrático. É o mecanismo que separa a inovação responsável de um mercado em que qualquer ingrediente “diferentão” vira suplemento sem evidência suficiente. Para o consumidor, a consequência é simples: quando um produto é regularizado, ele passa a ter um nível de exigência documental e de rastreabilidade que não depende da fé no marketing.

Onde o consumidor encontra isso na prática (sem cair em armadilhas)

1) Rótulo é mais importante do que promessa

Quando um ingrediente é usado em alimento industrializado, ele precisa aparecer na lista de ingredientes. Se houver alegação de proteína, a tabela nutricional também entra no jogo. O que interessa aqui é a transparência: você consegue identificar o ingrediente, a porção e a quantidade declarada.

2) Alergia é o alerta número 1

Se você tem alergia a crustáceos, ácaros ou moluscos, o tema merece cautela extra. A avaliação europeia sobre Tenebrio molitor reforça justamente essa possibilidade de reação cruzada e de sensibilização. Em caso de histórico de alergia alimentar importante, a decisão não deve ser “testar para ver” vale conversar com um profissional de saúde.

3) Sustentabilidade depende de como se produz

Insetos podem ter vantagem ambiental em alguns cenários, inclusive com evidência de menor pressão sobre terra e potencial de menor emissão em comparação com algumas proteínas animais, mas isso varia por sistema produtivo. É um debate que funciona melhor quando sai do slogan e entra em dados de cadeia produtiva.

4) Preço e acesso ainda são barreiras

No Brasil, mesmo outras proteínas alternativas mais “comuns” (como diferentes concentrados vegetais) já chegam ao mercado com preço acima do esperado para grande parte das famílias. A tendência é que ingredientes novos sigam o mesmo caminho no começo: escala pequena, custo alto, público mais nichado.

O que dá para esperar daqui para frente

O avanço mais provável é ver o ingrediente aparecer primeiro em formatos em que o consumidor já aceita “proteína adicionada”: snacks, massas, misturas prontas e produtos do universo fitness, sempre que houver base regulatória e documentação de segurança.

Também é esperado que cresça a discussão sobre padronização de qualidade (incluindo alimentação dos insetos, contaminantes e controle microbiológico), rotulagem e gestão do risco alérgico. Em outras palavras: quanto mais o tema amadurece, menos ele depende de choque cultural e mais depende de regra, evidência e transparência.

No fim, a pergunta mais útil talvez não seja “você teria coragem?”, mas “isso está regularizado, rotulado e bem explicado?”. Quando a resposta é sim, a proteína de insetos deixa de ser moda e passa a ser uma opção para quem quiser e para quem puder escolher com informação.

Este artigo se baseou em informações de: FAOAnvisaAnvisaPubMedThe GuardianDGAVEFSARevista Pesquisa FAPESP.

Fonte: Gazeta do Interior / Johnny Lodeti  

Publicação original:
Proteína de insetos: por que cresce no mundo e o que diz a Anvisa

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